Investigação da PF contra Cláudio Castro ocorre após alertas do TCE sobre aplicações que chegaram a R$ 3 bilhões.
As aplicações bilionárias do Rioprevidência em fundos ligados ao Banco Master voltaram ao centro da crise política do Rio após a operação da Polícia Federal que teve o ex-governador Cláudio Castro como alvo nesta terça-feira.
A investigação apura aportes feitos pelo estado por meio do fundo previdenciário dos servidores estaduais em produtos financeiros vinculados à instituição bancária, em um caso que já havia sido alvo de alertas e decisões do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) desde o ano passado.
O Rioprevidência administra os recursos que pagam aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores estaduais. A polêmica começou após técnicos do TCE identificarem uma concentração considerada excessiva de recursos aplicados no Banco Master. Inicialmente, o fundo admitia cerca de R$ 960 milhões investidos em letras financeiras da instituição — títulos sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Com o avanço das apurações, porém, o tribunal passou a apontar uma exposição muito maior. Em monitoramento realizado entre maio e julho de 2025, técnicos do TCE concluíram que o valor total exposto a títulos emitidos ou fundos administrados pelo Master chegava a R$ 2,6 bilhões, mais de 25% do patrimônio do Rioprevidência. Agora, segundo informações da PF, o montante investigado já alcança R$ 3 bilhões.
A área técnica do TCE afirmou ter encontrado “graves irregularidades” nas operações. Em maio de 2025, a Corte fez um alerta formal aos gestores do Rioprevidência, afirmando que novas aplicações poderiam resultar na “integral assunção do risco de possíveis irregularidades” pelos responsáveis pelo fundo. Apesar disso, o tribunal apontou que cerca de R$ 1 bilhão teria sido aportado posteriormente em aplicações ligadas ao Banco Master.
Para a relatora do caso no TCE, a conselheira Mariana Montebello Willeman, os novos investimentos indicavam “agravamento do cenário” e uma “gestão possivelmente irresponsável dos recursos”. Em decisão unânime, os conselheiros determinaram que o Rioprevidência deixasse de realizar novos investimentos em instrumentos financeiros emitidos, administrados ou geridos por empresas do Banco Master e por instituições que não atendessem aos princípios de segurança e prudência financeira.
O tribunal também decidiu intimar o então governador Cláudio Castro para avaliar uma possível intervenção no fundo previdenciário estadual, diante do risco apontado pelos técnicos.
O Rioprevidência sempre negou irregularidades. Em nota divulgada à época, a autarquia afirmou que não realizava novas aplicações no Banco Master desde abril de 2024 e sustentou que cumpria integralmente as determinações do TCE. O órgão também contestou os números apresentados pela Corte, alegando que o valor efetivamente investido era de aproximadamente R$ 960 milhões e que as operações permaneciam “regulares e adimplentes”.
A investigação teve origem em uma denúncia apresentada pelo deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha. Em audiência pública realizada em novembro de 2024, o então presidente do Rioprevidência, Deivis Antunes, confirmou a existência das aplicações no Banco Master.
Na sequência, uma representação aberta pela Secretaria-Geral de Controle Externo do TCE sustentou que os investimentos teriam sido feitos sem autorização do conselho de administração do fundo e com justificativas consideradas inconsistentes.
Durante depoimento no tribunal, o ex-diretor de investimentos do Rioprevidência, Euchério Lerner Rodrigues, afirmou que o fundo decidiu ampliar aplicações em bancos menores a partir de 2023 para diversificar os investimentos, até então concentrados em grandes instituições financeiras.
Segundo ele, dois fatores pesaram na escolha pelo Banco Master: a rentabilidade das letras financeiras, que superava 130% do CDI, e a relação comercial da instituição com o governo estadual, já que o banco operava crédito consignado para servidores ativos e aposentados do estado.
Nesta terça-feira, a Polícia Federal cumpriu 10 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Distrito Federal por ordem do ministro André Mendonça. Até o momento, a PF não informou quais crimes são investigados nem detalhou os alvos das buscas.