Para Ray Dalio, situação não é um problema isolado, mas uma transformação histórica que pode tornar o país quase irreconhecível em 5 anos.
Ray Dalio vem alertando há anos que o problema da dívida dos Estados Unidos poderia provocar um “ataque cardíaco” econômico. Agora, ele diz que isso é apenas parte da história.
O bilionário fundador da Bridgewater Associates ampliou seu alerta em uma conversa recente com Ross Douthat, do jornal The New York Times, argumentando que os EUA estão entrando em um período de “grande turbulência” tão severo que o país será “quase irreconhecível” em cinco anos. Ele descreve a era que se aproxima como uma espécie de “salto no tempo” — uma expressão que transmite o quão desorientadora e rápida essa transformação pode ser.
O alerta fiscal de Dalio continua tão severo quanto antes. Atualmente, os EUA gastam cerca de US$ 7 trilhões por ano enquanto arrecadam aproximadamente US$ 5 trilhões — uma diferença que faz o governo federal pagar bilhões por semana apenas com o serviço da dívida e deixou o país carregando uma dívida equivalente a aproximadamente seis vezes sua renda.
Ele compara a situação ao “acúmulo de placas” em uma artéria: ainda não houve ataque cardíaco, mas a “ressonância magnética” financeira do país sugere que um virá se os gastos não forem contidos.
(Na prática, Dalio subestimou quanto os EUA pagam em juros por semana: a Peter G. Peterson Foundation informa que o país pagou US$ 970 bilhões em juros em 2025, enquanto o CBO projeta US$ 1,039 trilhão em 2026 — o que equivale a aproximadamente US$ 19 bilhões a US$ 20 bilhões por semana.)
Na visão de Dalio, o desfecho mais provável é uma espiral estagflacionária semelhante à dos anos 1970, na qual o Federal Reserve acaba sendo forçado a emitir dinheiro para cumprir suas obrigações.
“Meus netos e bisnetos que ainda nem nasceram vão acabar pagando essa dívida em dólares desvalorizados”, disse Dalio a David Rubenstein no início deste ano — um comentário que reforça sua crença de que o impacto não será repentino, mas lento, distribuído e inevitável para as futuras gerações.
O que torna o alerta mais recente de Dalio mais amplo do que seus avisos fiscais anteriores é o conjunto de fatores ao redor dele.
Tanto ele quanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, defenderam reduzir o déficit para 3% do PIB como solução estrutural — uma meta que recebe raro respeito bipartidário nos círculos financeiros, mas continua distante da trajetória atual de Washington.
Segundo Dalio, a crise da dívida está convergindo com outras quatro forças que estão chegando ao limite ao mesmo tempo:
2. Rivalidade internacional, incluindo as tensões entre EUA e China e possíveis pontos de escalada envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz.
3. Eventos naturais, incluindo impactos ligados ao clima, que pressionam orçamentos federais já sobrecarregados.
4. Inteligência artificial, que ele vê ao mesmo tempo como uma possível tábua de salvação — um salto de produtividade capaz de superar o crescimento da dívida — e como uma ameaça desestabilizadora que pode deslocar milhões de trabalhadores e ser usada como ferramenta estratégica por países rivais. Dalio escreveu para a Fortune que “os dias em que as pessoas tomavam decisões apenas na própria cabeça estão chegando ao fim”, à medida que a IA remodela economias e estruturas de poder.
Em conjunto, Dalio chama essa convergência de “grande ciclo” — um padrão que estudou ao longo de séculos de ascensão e queda de impérios e que, segundo ele, os EUA estão vivendo em tempo real.
Talvez o alerta geopolítico mais marcante de Dalio diga respeito ao que acontece se os EUA passarem a ser percebidos como um país em perda de influência global. Em março, ele publicou um duro alerta dizendo que o conflito entre EUA, Israel e Irã será um confronto decisivo em torno do Estreito de Ormuz — e que o resultado determinará se a ordem global liderada pelos EUA sobreviverá.
Ele recorre à Crise de Suez de 1956 — momento em que o excesso de ambição imperial britânica se tornou incontestável e abalou permanentemente a confiança na libra esterlina como moeda de reserva global — como paralelo de advertência para o dólar.
Se os EUA falharem em demonstrar poder de forma convincente, o mundo poderá começar, silenciosamente, a questionar se o dólar merece continuar ocupando sua posição privilegiada.
Esse receio já foi muito além de Wall Street. Politico, The Telegraph e Middle East Eye publicaram análises em março perguntando se o impasse entre EUA e Irã representaria exatamente esse paralelo com Suez.
Pela estrutura de análise de Dalio, a crise da dívida e um possível confronto em Ormuz não são riscos separados, mas fatores que se reforçam mutuamente: um tropeço militar poderia acelerar justamente a perda de confiança no dólar, tornando a equação fiscal ainda mais difícil de sustentar.
Dalio é notavelmente pessimista quanto à capacidade de Washington de reagir. Segundo ele, a estrutura de incentivos da política democrática trabalha ativamente contra as decisões difíceis exigidas — aumentar impostos, cortar benefícios e reorganizar gastos. Políticos eleitos que tomam essas decisões deixam de ser reeleitos. Por isso, não as tomam.
Sua proposta para o momento é o que chama de “um líder forte do centro” — alguém capaz de construir consenso em um eleitorado fragmentado e implementar reformas estruturais na educação e na política fiscal. Se uma figura assim pode surgir no ambiente político atual, ele deixa em aberto.
Para quem busca proteção, o conselho de Dalio é claramente defensivo: diversificar e se proteger contra a desvalorização do dólar. Ele tem incentivado investidores a ir muito além da carteira tradicional de 60% em ações e 40% em renda fixa, recomendando destinar até 15% para ouro e criptoativos como proteção contra a perda de valor das moedas fiduciárias durante este período de turbulência.
É uma mensagem sóbria de um dos investidores macroeconômicos mais observados do mundo. O ataque cardíaco, diz Dalio, nunca foi o diagnóstico completo. É apenas um sintoma de algo muito maior — e o prognóstico, sem intervenção séria, é um país que, ao fim dos próximos cinco anos, mal se parecerá com aquele que já existiu.
Para esta reportagem, jornalistas da Fortune utilizaram IA generativa como ferramenta de pesquisa. Um editor verificou a precisão das informações antes da publicação.
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