O hidrogel que tira água do ar onde não há rios nem poços..
Em regiões onde o rio mais próximo fica a horas de caminhada, o hidrogel solar desenvolvido por pesquisadores de Stanford retira água diretamente do ar usando apenas luz do sol. A ideia não é nova, mas o que mudou dessa vez resolve exatamente o problema que tornava essa tecnologia inviável.
O hidrogel combina cloreto de lítio, um sal que captura umidade do ar, com poliacrilamida, polímero comum em fraldas descartáveis. Juntos, absorvem de duas a quatro vezes o próprio peso em água durante a noite e liberam tudo com o calor do sol ao longo do dia.
O dispositivo não precisa de eletricidade, bomba ou infraestrutura. Funciona mesmo no deserto do Atacama, no Chile, um dos lugares mais áridos da Terra, produzindo até 2 litros de água por dia com um painel do tamanho de uma toalha de banho.
A tabela abaixo resume as principais diferenças entre o material anterior e o novo modelo:
| Característica | Hidrogel anterior | Hidrogel de Stanford |
|---|---|---|
| Ciclos de uso | Cerca de 30 | Mais de 190 |
| Durabilidade estimada | Semanas | Mais de 8 meses |
| Principal limitação | Degradação por íons metálicos | Resolvida com anticorrosão |
| Custo potencial por litro | Inviável economicamente | Estimado em US$ 0,01 |
O problema que inviabilizava essa tecnologia era o metal. O suporte metálico do dispositivo liberava íons que deterioravam o hidrogel rapidamente, limitando a vida útil a cerca de 30 ciclos. Era o suficiente para tornar a tecnologia economicamente inviável em qualquer escala real.
A equipe descobriu que um revestimento anticorrosão aplicado ao metal resolve o problema. Com essa mudança, o hidrogel permaneceu estável por mais de 8 meses em testes a 75 °C, temperatura usada para simular condições extremas. A durabilidade passou de 30 para mais de 190 ciclos de uso.
Os avanços que diferenciam o novo hidrogel das versões anteriores:
Em um vilarejo sem rios, um painel do tamanho de uma toalha colocado ao sol pela manhã produz, até o anoitecer, os primeiros 2 litros de água potável sem consumir eletricidade. A equipe já trabalha em versões que podem atingir 5 litros diários por unidade.
O professor Carlos Diaz-Marin, da Stanford Doerr School of Sustainability e co-autor do estudo publicado em maio de 2026 na Nature Communications, projeta custo de produção de cerca de US$ 0,01 por litro, menos de 1% do preço médio de uma garrafa de água.
A pesquisa ainda está em fase de demonstração, não de produção em escala. O painel atual entrega 2 litros por dia, quantidade insuficiente para uso doméstico completo. Para atender famílias inteiras, seria necessário empilhar unidades, o que eleva o custo e a complexidade de fabricação.
Ainda assim, o caminho existe. Para comunidades rurais sem rios ou poços seguros, um painel pode substituir horas de caminhada por água ao alcance das mãos. O hidrogel solar pode ser parte da resposta para a escassez hídrica que afeta mais de 2 bilhões de pessoas.