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Gasolina alivia IPCA, mas inflação acumulada pressiona teto com alimentos e serviços
Gasolina alivia IPCA, mas inflação acumulada pressiona teto com alimentos e serviços
12/05/2026 14h44
Por: Redação Fonte: Agência Infomoney

Gasolina alivia IPCA, mas inflação acumulada pressiona teto com alimentos e serviços.

 

A inflação geral desacelerou em abril, mas o alívio não é permanente; preços essenciais e produtos industriais continuam subindo com força, mostrando que a pressão sobre o custo de vida ainda não passou.

A inflação de abril ficou abaixo da registrada em março, mas o alívio não significa menor pressão sobre os preços. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE nesta terça-feira (12), teve variação de 0,67%, um pouco abaixo da mediana do mercado (0,68%). A desaceleração foi puxada pela gasolina e passagens aéreas, e o avanço ficou com alimentos, saúde e cuidados pessoais.

Em 12 meses, o IPCA acumula alta de 4,39%, frente a 4,14% de março. O teto da meta é 4,5%.

Período Variação
Abril de 2026 0,67%
Março de 2026 0,88%
Abril de 2025 0,43%
Acumulado no ano 2,60%
Acumulado nos últimos 12 meses 4,39%
Fonte: IBGE

Alimentos e saúde puxam alta do IPCA em abril

Ao analisar os números, a XP destaca que as principais surpresas altistas em relação às suas previsões vieram das carnes (contribuição de 2,1 pontos-base), seguidas por frutas (1,6 bps), serviços pessoais (1,4 bps) e tubérculos, raízes e vegetais (1,3 bps). Em contrapartida, as principais surpresas que ajudaram a segurar o índice vieram da gasolina (-2,6 bps), medicamentos (-2,1 bps) e transporte público (-1,3 bps).

O grupo de Alimentação e bebidas liderou a pressão de custos no mês, registrando avanço de 1,34%. De acordo com o economista Leonardo Costa, do ASA, o movimento reflete altas relevantes em produtos como cenoura (+26,6%), leite longa vida (+13,7%), cebola (+11,8%) e carnes (+1,6%). 

O segmento de Saúde e cuidados pessoais apareceu logo na sequência com alta de 1,16%, incorporando o efeito sazonal da autorização de reajuste nos preços dos medicamentos a partir de 1º de abril. Somados, alimentação e saúde responderam por aproximadamente dois terços de todo o resultado inflacionário do mês.

O gerente do IPCA, José Fernando Gonçalves, explicou que a variação de preços reflete uma dinâmica setorial. “Alguns alimentos, de forma geral, apresentam uma restrição de oferta, o que provoca um aumento no nível de preços. No caso do leite, com a chegada do clima mais seco, sazonal no período, há redução de pasto, necessitando da inclusão de ração para os animais, o que eleva os custos. Não podemos deixar de mencionar a elevação no preço dos combustíveis, que afeta o preço final dos alimentos por conta do custo do frete”. 

A analista Sara Paixão, da InvestSmart XP, destaca que a pressão de custos do frete sobre os alimentos já representa o primeiro sinal de efeito secundário do choque nos preços do petróleo.

IPCA de abril, por grupos
  Março (%) Abril (%)
Índice Geral 0,88 0,67
Alimentação e bebidas 1,56 1,34
Habitação 0,22 0,63
Artigos de residência 0,51 0,65
Vestuário 0,46 0,52
Transportes 1,64 0,06
Saúde e cuidados pessoais 0,42 1,16
Despesas pessoais 0,65 0,35
Educação 0,02 0,06
Comunicação 0,19 0,57
Fonte: IBGE

Piora qualitativa e pressão nos núcleos

Se o alívio do índice cheio aparenta trazer um “respiro”, a leitura qualitativa feita por bancos e corretoras acende um sinal de alerta. As pressões sobre os preços vinda do cenário de guerra continua, bem como a demanda impulsionada pelo mercado de trabalho aquecido e renda em alta.

O Goldman Sachs avalia que a pressão sobre os preços no setor de serviços continua “intensa e disseminada”. O economista Alberto Ramos destaca que a média dos núcleos de inflação registrou uma taxa elevada de 0,49% no mês, enquanto os serviços subjacentes avançaram 0,52%.

Esse núcleo foi diretamente impactado por altas expressivas em seguro de automóvel (+0,97%), conserto de veículos (+0,84%), serviços médicos (+1,02%) e serviços bancários (+0,93%). O grupo de serviços no índice cheio só pareceu estável (+0,04%) por conta da queda expressiva nas tarifas aéreas (-14,45%).

“Os preços dos bens duráveis continuam a acelerar e é improvável que contribuam para a desinflação em 2026. O contexto, já desafiador antes do início da guerra no Oriente Médio, deteriorou-se ainda mais”, afirma Caio Megale, economista da XP.

O Itaú reforça a leitura de um qualitativo pior na margem, embora com uma composição atípica: surpresas de baixa em bens industriais subjacentes (como vestuário) foram neutralizadas por surpresas de alta em serviços subjacentes (conserto de automóvel) e alimentação fora de casa. Pela métrica da média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada, o banco aponta que os serviços subjacentes aceleraram de 5,4% para 6,0%.

O Bradesco pontua que uma aceleração anual já estava no radar devido ao choque dos combustíveis gerado pela guerra no Irã. Contudo, o item gasolina subiu 1,9% no mês, configurando uma forte surpresa baixista frente às altas mais robustas sugeridas pelos relatórios da ANP. Diante do petróleo valorizado e da ausência de resoluções geopolíticas no Oriente Médio, a instituição prevê um horizonte próximo de inflação persistentemente pressionada.

No ASA, a avaliação de Leonardo Costa é de que a moderação frente a março não entrega alívio estrutural, uma vez que dependeu de itens voláteis. O economista nota que os bens industrializados exibem pressão crescente, possivelmente capturando efeitos de segunda ordem do conflito no Oriente Médio sobre as cadeias globais de insumos e sobre a taxa de câmbio.

Projeções para a inflação do ano e a Selic

A resiliência da inflação subjacente e os choques externos desenham um cenário complexo para as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

A XP cita que a inflação acumulada no bimestre março-abril veio cerca de 80 pontos-base acima das trajetórias estimadas pelo Banco Central no Relatório de Inflação de março. Ainda assim, a corretora mantém a projeção de IPCA em 5,3% para 2026 e 4,0% para 2027, e projeta que a autoridade monetária prosseguirá com cortes moderados de 25 pontos-base na taxa Selic, conduzindo os juros para 13,75% até o fim do ano.

O Goldman Sachs tem postura mais cautelosa. Alberto Ramos argumenta que a combinação de serviços rodando próximos a 6,0% ao ano, expectativas de inflação em deterioração, hiato do produto positivo, mercado de trabalho aquecido e o provável avanço de estímulos fiscais e de crédito antes das eleições do quarto trimestre de 2026 demandam uma “calibração conservadora” no ciclo de afrouxamento monetário.

O Itaú projeta a inflação de 2026 em 5,2%, classificando o balanço de riscos como assimétrico para cima. Já o ASA sinaliza que suas estimativas para o IPCA de 2026 (hoje em 5,0%) e de 2027 (4,0%) passarão por revisões altistas em breve.

A SulAmérica Investimentos avalia que a rigidez do setor de serviços praticamente anula as chances de o Copom acelerar o ritmo de cortes da Selic. De acordo com a economista-chefe Natalie Victal, o debate do mercado financeiro migrou de “quanto acelerar” para “onde parar”. Com expectativas desancoradas e choques de oferta evidentes, a projeção de uma taxa Selic terminal em 14,00% ganha viés de alta, elevando a probabilidade de o Banco Central encerrar o ciclo de cortes precocemente caso os serviços não percam força.