Primeira-dama reage a publicações de apoiadores da direita que ingeriram produtos para contestar decisão da agência.
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, criticou nesta segunda-feira (11) a onda de vídeos publicados nas redes sociais por apoiadores da direita consumindo detergentes da marca Ypê após a suspensão temporária de parte dos produtos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A declaração foi feita durante cerimônia no Palácio do Planalto para a sanção da lei que cria o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Sem citar nomes diretamente, Janja associou o episódio à disseminação de desinformação nas redes sociais.
“Até quando a gente vai ver gente bebendo detergente contaminado? É muita ignorância!”, afirmou a primeira-dama.
A reação ocorre depois que influenciadores, militantes bolsonaristas e perfis alinhados à direita passaram a publicar vídeos comprando produtos da marca e, em alguns casos, ingerindo detergente diante das câmeras. A mobilização começou após a Anvisa determinar o recolhimento de lotes específicos de lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes fabricados pela empresa.
Os conteúdos circularam em meio à repercussão de que empresários ligados à companhia fizeram doações à campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022. Parte dos apoiadores do ex-presidente passou então a sustentar que a medida da agência reguladora teria motivação política.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também entrou na discussão ao publicar uma foto de um produto da marca nas redes sociais.
Horas antes da fala de Janja, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também tentou afastar a politização do episódio. Segundo ele, a decisão da Anvisa foi técnica e não teve qualquer relação partidária.
“A Anvisa não tem lado de governo, não tem lado partidário, não tem lado A ou B”, disse o ministro.
Padilha ainda pediu que as pessoas não utilizem detergentes para produzir vídeos nas redes sociais. “É desinformação e coloca vidas em risco”, afirmou.
O ministro destacou que a investigação sanitária teve participação de órgãos estaduais de vigilância de São Paulo, estado governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado político de Bolsonaro. Também lembrou que o diretor da Anvisa responsável pela área técnica envolvida na recomendação foi indicado durante o governo do ex-presidente.
A crise começou na quinta-feira (7), quando a agência publicou resolução suspendendo a fabricação e determinando o recolhimento de lotes específicos de produtos com numeração final 1. Segundo a Anvisa, foram identificadas irregularidades em etapas consideradas críticas do processo de produção.
Dois dias depois, na sexta-feira (9), a agência voltou atrás parcialmente após recurso apresentado pela empresa e liberou novamente os produtos. Apesar disso, o processo de recolhimento dos lotes indicados segue mantido até a conclusão das análises técnicas.
O episódio ampliou uma disputa política em torno de decisões regulatórias e reforçou o ambiente de polarização nas redes sociais, tema que o governo federal tem tratado como foco de preocupação desde os episódios de desinformação registrados durante a pandemia.