Mais do que reagir a crises pontuais, a resiliência ajuda a construir organizações flexíveis, capazes de antecipar impactos e se adaptar.
WASHINGTON — Uma palavra não sai de cena, em salas de conselho e teleconferências de resultados, quando CEOs descrevem como estão lidando com crise após crise: resiliência.
Líderes corporativos enfrentaram inúmeros desafios nos últimos seis anos. Os lockdowns da covid-19 e greves em portos desorganizaram cadeias de suprimentos, enquanto guerras na Ucrânia e no Irã elevaram os preços de energia. Políticas tarifárias em constante mudança aumentaram custos, e a explosão da inteligência artificial está transformando rapidamente os negócios.
Essas mudanças já não são temporárias — fazem parte do dia a dia. Investidores e conselhos de administração, normalmente focados em desempenho e crescimento de curto prazo, também passaram a valorizar habilidades de liderança capazes de se ajustar e se adaptar em um ambiente geopolítico caótico.
Líderes precisam ter capacidade para antecipar e absorver choques em seus negócios e reagir rapidamente.
“Eles não percebem o quanto cresceram em um mundo que valoriza a resiliência”, disse Rich Lesser, chairman global do Boston Consulting Group, uma empresa de serviços profissionais. “Sua formação e sua mentalidade são muito mais resilientes do que seriam no fim da década passada.”
Desde janeiro de 2020, variações da palavra “resiliência” aumentaram 162% nas teleconferências de resultados de empresas de capital aberto nos Estados Unidos com valor de mercado de pelo menos US$ 1 bilhão, segundo a empresa de pesquisa em IA AlphaSense.
‘O uso do termo começou a cair em 2023 e 2024, mas voltou a disparar após o presidente Donald Trump anunciar tarifas abrangentes em abril passado. Nos últimos trimestres, tem voltado a subir.
A palavra funciona como explicação de como executivos atravessam a incerteza, tomam decisões ágeis e evitam que desafios existenciais paralisem suas organizações.
“Há guerras, picos no preço dos combustíveis, problemas econômicos, recessões — e você precisa estar preparado para o longo prazo como empresa, porque os choques vão acontecer”, disse Bob Jordan, CEO da Southwest Airlines, a investidores em uma teleconferência este mês. “É por isso que construímos um negócio muito resiliente.”
CEOs se animam quando o tema surge. Usam o termo para descrever seu estilo de liderança e enumeram as diferentes formas que a resiliência pode assumir. Em muitos sentidos, a resiliência virou o antídoto para a incerteza.
Thasunda Brown Duckett, CEO da TIAA, gestora de planos de aposentadoria, disse que a resiliência sempre foi necessária para lidar com as mudanças ao longo dos 108 anos da empresa. O que mudou, segundo ela, foi a velocidade com que negócios podem ser impactados.
“Um conflito do outro lado do mundo pode ter implicações econômicas diretas quase instantaneamente”, disse Duckett por e-mail. “E os CEOs estão sendo cobrados a ter uma posição pública sobre tudo isso, em tempo real.”
A Bayer, gigante farmacêutica e de biotecnologia alemã, alterou drasticamente sua estrutura organizacional para acompanhar esse ritmo. Desde janeiro de 2024, a empresa eliminou dois terços dos cargos de gestão.
Bill Anderson, CEO da Bayer, disse que quis transferir mais poder para equipes especializadas dentro da empresa, permitindo decisões mais rápidas.
“As empresas têm departamentos de gestão de crises, grupos de gestão de risco e planos de contingência — e tudo isso é válido, mas não é assim que se constrói resiliência”, disse Anderson, em entrevista nos bastidores do evento Semafor World Economy neste mês. “A resiliência vem de uma organização flexível e adaptável.”
Líderes destacaram a importância de ter uma visão estratégica clara para o negócio, o que permite manter o foco em meio à incerteza macroeconômica. Conseguir comunicar a funcionários — e investidores — quais são os objetivos da empresa aumenta a confiança.
“É preciso ter o que chamamos de ‘consciência compartilhada’”, disse Joanne Crevoiserat, CEO da Tapestry, dona das marcas Coach e Kate Spade. “Todos precisam entender a missão.”
Na PacSun, rede de varejo com estilo californiano presente em shopping centers, a gestão reconstruiu a organização com uma visão única. Após sair da recuperação judicial em 2016, a empresa priorizou parcerias mais fortes com clientes e colaboradores para tornar o negócio mais resistente a crises, disse sua CEO, Brieane Olson.
“Mais importante do que resiliência, para mim na PacSun, é construir confiança”, afirmou Olson. “Isso inclui fornecedores, vendedores das lojas e clientes.”
Investidores também buscam líderes resilientes. “Isso precisa fazer parte do modelo operacional”, disse Hemant Taneja, CEO da General Catalyst, empresa de capital de risco. “Todo CEO precisa liderar com uma base de confiança nesse sentido.”
No setor de saúde, historicamente visto como menos sensível a oscilações globais por lidar com necessidades essenciais, empresas falam em reduzir preços para consumidores e acelerar aprovações de seguros.
Zach Reitano, CEO da Ro, empresa que vende diretamente ao consumidor e oferece acesso a medicamentos para perda de peso com GLP-1 e atendimento online — com campanhas estreladas por Serena Williams —, disse que líderes precisam de resiliência financeira, cultural e estratégica. Ainda assim, destacou a importância da resiliência para melhor atender os clientes.
“Como garantir que, mesmo com o mundo mudando ao seu redor, o produto ou serviço oferecido continue entregando o que foi pago, o que o cliente espera e merece?”, disse Reitano.
c.2026 The New York Times Company