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Russos não ligaram para guerra, mas, quando Putin restringiu internet, a coisa mudou.
Russos não ligaram para guerra, mas, quando Putin restringiu internet, a coisa mudou.
04/05/2026 09h21
Por: Redação Fonte: The New York Times

Russos não ligaram para guerra, mas, quando Putin restringiu internet, a coisa mudou.

 

Bastou o governo cercear apps populares e acesso à internet para receber críticas e perder popularidade.

MOSCOU — O presidente Vladimir Putin e seus serviços de segurança mantiveram sob controle o dissenso público mesmo enquanto ele invadia um país vizinho, enviava centenas de milhares de soldados para a morte e elevava drasticamente os impostos para pagar por tudo isso.

Depois, passaram a restringir aplicativos populares e a cortar o acesso à internet de forma intermitente. De repente, muitos russos se indignaram.

Cidadãos comuns, políticos e até estrelas de reality show criticaram as restrições. Ao se manifestarem, deram um sopro de vida ao sistema político russo, que já não permite uma oposição genuína, mas ainda deixa algum espaço nas margens para opiniões divergentes.

Influenciadores do Instagram que normalmente são apolíticos passaram a defender direitos digitais com veemência. Políticos da “oposição sistêmica” — facções de fachada que o Kremlin permite no Parlamento para se oporem ao partido governista Rússia Unida, mas que quase sempre votam com ele — reprovaram o governo por restringir o Telegram, o aplicativo de mensagens mais usado do país.

O descontentamento vem crescendo meses antes das primeiras eleições parlamentares da Rússia desde a invasão da Ucrânia em 2022. E, junto com a insatisfação com a economia enfraquecida e o aumento de impostos, ajudou a derrubar a taxa de aprovação de Putin. O índice caiu por sete semanas consecutivas e agora está em 65,6%, segundo o VTsIOM, instituto estatal de pesquisas, nível semelhante ao de pouco antes da guerra.

“As restrições à internet colocaram um grande número de pessoas contra a classe governante, ainda que não necessariamente contra Vladimir Putin pessoalmente”, disse Mikhail Komin, cientista político do Center for European Policy Analysis. “É por isso que estamos vendo a queda nas taxas de aprovação e pessoas que nunca se manifestaram sobre política de repente se politizando.”

Poucos aspectos do aprofundamento da repressão na Rússia ao longo da guerra foram sentidos de forma tão ampla quanto os esforços do Kremlin, sob pretextos de tempo de guerra, para colocar a internet do país totalmente sob seu controle.

Citando razões de segurança, as autoridades bloquearam por meses o acesso à internet móvel por dias seguidos na grande maioria das regiões russas.

Também bloquearam ou reduziram a velocidade de um número crescente de aplicativos estrangeiros — incluindo Facebook, YouTube, WhatsApp e Telegram — pressionando os russos a usar alternativas nacionais, mais fáceis de monitorar.

Muitos recorreram a soluções tecnológicas conhecidas como redes privadas virtuais, ou VPNs.

À medida que os apagões e bloqueios passaram a interferir na vida cotidiana, russos tentaram realizar protestos em algumas cidades. As autoridades os impediram, em alguns casos alegando receio de que as manifestações pudessem crescer demais.

Em vez disso, os russos levaram suas queixas para as redes sociais. Mensagens furiosas inundaram a seção de comentários da página do Ministério do Desenvolvimento Digital. Quando as falhas de internet atingiram o pico, também cresceram as buscas no Google por “como sair da Rússia”.

As críticas vieram de vozes inesperadas. Victoria Bonya, influenciadora de beleza e ex-estrela de reality show que vive em Mônaco, disse em um vídeo no Instagram que as restrições à internet “tornam a Rússia [um lugar] impossível de viver”.

Ela foi cuidadosa ao criticar diretamente Putin, recorrendo a um clichê russo para sugerir que talvez ele não tivesse sido devidamente informado por seus assessores. E falou a partir da relativa segurança de viver no exterior. Ainda assim, afirmou: “Não acho que as pessoas devam ter medo do próprio presidente.”

O vídeo recebeu mais de 30 milhões de visualizações. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi pressionado por repórteres por dois dias seguidos a comentar o caso e, por fim, disse que Bonya poderia ficar tranquila, pois o Kremlin estava trabalhando nas questões levantadas por ela.

Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista russo, elogiou Bonya durante um discurso no Parlamento. Disse que, com a economia estagnada e o aumento das restrições à internet, o descontentamento crescente poderia ameaçar o atual governo da mesma forma que uma guerra impopular, dificuldades econômicas e a supressão de liberdades derrubaram a monarquia russa em 1917.