
País quer mais liberdade para aumentar produção fora das amarras do grupo, que estipula cotas; perda do poder do cartel de definir preços do petróleo atende a desejos de Donald Trump.
O anúncio da saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), bem como do grupo expandido Opep+, não se configura apenas como um movimento isolado de um país descontente com a falta de flexibilização da produção em resposta à demanda de mercado, mas se localiza num amplo contexto de medição de forças no tabuleiro do xadrez global. Analista e especialistas estão se debruçando hoje sobre os motivos e as consequências da decisão.
Oficialmente, as autoridades dos Emirados Árabes comunicaram que a decisão segue “uma revisão abrangente da política de produção dos Emirados Árabes Unidos e de sua capacidade atual e futura, baseando-se em nosso interesse nacional e em nosso compromisso em contribuir efetivamente para atender às necessidades urgentes do mercado”. Eles também destacaram a “responsabilidade soberana em uma nova era energética”.
O comunicado deu ainda uma dimensão de mais longo prazo ao anúncio, tirando um pouco o peso da difícil conjuntura atual. “Embora a volatilidade de curto prazo, incluindo interrupções no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, continue afetando a dinâmica da oferta, tendências subjacentes apontam para um crescimento sustentado na demanda global de energia no médio e longo prazo”, explicaram.
O governo local destacou a intenção de manter os Emirados Árabes como um “parceiro de energia confiável e responsável” e frisou que a decisão vai aumentar a flexibilidade para responder à dinâmica do mercado enquanto continua contribuindo para a estabilidade de maneira medida e responsável”.
Ficou assim bastante claro que o grupo de países quer sair das amarras do cartel encabeçado pela Arábia Saudita. Movimento que já foi feito recentemente pelo Catar, (2019) e Angola (2024).
O InfoMoney listou algumas razões e consequências no curto, médio e longo prazo dessa decisão.
A Opep é uma organização intergovernamental que reúne algumas das principais nações produtoras de petróleo do mundo. Fundada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, foi uma inciativa para reduzir o controle exercido pelas grandes companhias petrolíferas internacionais conhecidas como “Sete Irmãs” (Exxon, Shell, BP, Mobil, Texaco, Gulf e Chevron), que controlavam a produção de decidiam os preços.
Desde então, os Estados-membros se reúnem regularmente e chegam a um acordo sobre quanto petróleo cada país irá produzir. Se a produção é cortada, a oferta global aperta e os preços sobem. Quando a decisão é inversa, a produção cresce, a oferta avança e os preços caem. Desde a primeira crise do petróleo, de 1973, quando um embargo dos produtores multiplicou a cotação do petróleo por quatro, a OPEP tem exercido enorme influências sobre a economia global.
A entrada é anterior à própria criação da Federação dos sete emirados, em 1971: Abu Dhabi entrou na Opep em 1967. Hoje, o país é o terceiro maior produto dentro do grupo, que responde por cerca de 30% do fornecimento global de petróleo.
Mas os Emirados aproveitaram para diversificar sua economia desde então. Calcula-se que os setores não petrolíferos representam cerca de 75% do produto interno bruto (PIB), embora o país continue investindo na expansão da capacidade de petróleo e gás – e de energias renováveis e de baixo carbono.
Conforme reportagens do site Gulf News, deixar a Opep e a Opep+ remove os Emirados Árabes Unidos dos acordos coletivos de produção. Ou seja, o país não vai mais precisar operar sob cotas de produção estabelecidas pelo grupo e poderá determinar os níveis de produção com base em sua própria capacidade e nas condições do mercado.
Os planos dos Emirados Árabes Unidos são de aumentar a capacidade de produção de cerca de 3,4 milhões de barris por dia para 5 milhões de barris por dia até 2027.
A produção dos países dentro da Opep caiu 27%, para 20,79 milhões de barris por dia em março, após uma interrupção que retirou 7,88 milhões de barris por dia do fornecimento. Essa queda recente superou até s cortes observados durante o choque de demanda causado pela Covid-19, em 2020, e chegou a superar as interrupções anteriores no fornecimento na década de 1970 e em 1991.
O fechamento do Estreito de Ormuz deixou cerca de 140 milhões de barris de petróleo presos no Golfo Pérsico, o equivalente a cerca de 1,4 dia de demanda global.
Além do bloqueio da passagem, o Irã realizou ataques à infraestrutura dos países do Golfo, incapacitando simultaneamente Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque. Assim, quatro dos maiores produtores da Opep foram efetivamente removidos dos mercados globais no mesmo momento.
A refinaria e terminal de exportação de petróleo bruto de Ras Tanura – um dos maiores do mundo – foi fechada após ataques e a Saudi Aramco, instituição por meio da qual a Arábia Saudita exerce sua liderança na Opep, está operacionalmente comprometida.
Paira também uma desconfiança entre os sócios do cartel, após denúncias de que petroleiros da Arábia Saudita e de outros produtores aumentaram significativamente suas exportações nas semanas imediatamente anteriores tanto aos ataques de junho de 2025 às instalações nucleares iranianas quanto à operação de fevereiro de 2026, ambas comandadas pelos EUA.
Embora seja cedo para decretar que vai se favorecer mais da decisão dos Emirados Árabes, uma redução do poder da Opep atende a desejos de Donald Trump, que já foi a público algumas vezes reclamar do excesso de pode do cartel, a quem acusou de “roubar o mundo” ao buscar manter os preços altos.
E como lembrou há algumas semanas o Atlas Institute for International Affairs em análise sobre o poder da Opep, os EUA são simultaneamente o maior produtor mundial de petróleo e um dos principais alvos do poder de precificação da organização. Desde que a revolução do xisto transformou a produção de energia americana, os americanos estão em competição estrutural direta com as nações da Opep pela participação global de mercado. Ou seja, “cada barril de produção que a Opep corta para sustentar os preços é uma vantagem competitiva entregue aos produtores americanos”.
Trump também entende que a capacidade de manipular o preço da mercadoria que governa o mundo é, em termos geopolíticos, um poder enorme. Assim, a “destruição” funcional da Opep ofereceria aos Estados Unidos vários benefícios, sendo um deles o enfraquecimento de países petrolíferos rivais (Rússia, Irã e, até recentemente, Venezuela), cujos orçamentos nacionais dependem do aumento das receitas do petróleo. Outro ponto a favor dos EUA é uma possível aceleração da transição energética, na qual a tecnologia e o capital americanos estão mais bem posicionados para liderar.
Outro ganhador deve ser a China, o maior importador de petróleo do mundo, pelo simples motivo que cada dólar do poder de precificação da Opep é um imposto sobre a economia chinesa. A perda de poder da Opep representaria tende a trazer um enorme benefício econômico de longo prazo para Pequim, diz o think tank Atlas Institute. Essas benesses viriam de insumos de energia mais baratos em toda a sua base industrial, menor vulnerabilidade a interrupções no fornecimento e liberdade para obter energia competitivamente em um mercado global fragmentado.
Outro ponto citado é que a China também se posicionou como a principal fabricante das tecnologias que, um dia, substituirão o petróleo: painéis solares, baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas. “Um Oriente Médio em declínio estrutural como fornecedor de energia é, do ponto de vista de longo prazo de Pequim, um Oriente Médio que não pode obstruir o domínio da China em energia limpa”, diz o centro de análises.
O poder exercido pela Rússia nas últimas décadas está diretamente ligado à sua produção de petróleo. Mesmo após pesadas sanções, especialmente por parte da Europa, o regime de Vladimir Putin ainda tem conseguido financiar sua guerra de expansão territorial na Ucrânia, se valendo muitas vezes de uma frota fantasma de petroleiros.
Portanto, se o esvaziamento da Opep levar, em última análise, a um colapso estrutural dos preços do petróleo — à medida que o domínio americano do xisto e a acelerada transição energética se combinam para criar um excesso prolongado de oferta — a Rússia enfrentará o mesmo acerto de contas que qualquer outra economia dependente do petróleo — isso sem ter preservado os aliados regionais que poderiam tê-la ajudado a gerenciar a transição.
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