Em dezembro de 2024, uma equipe da Universidade de Barcelona escavava o sítio arqueológico de Al-Bahnasa, no centro do Egito, quando encontrou algo que raramente aparece em tumbas: múmias com lâminas de ouro moldadas em formato de língua, colocadas diretamente na boca dos mortos. Das 52 múmias encontradas, 13 tinham esse detalhe, e a explicação por trás da prática revela muito sobre como os egípcios encaravam a morte.
A prática não era decorativa. Segundo Mohamed Ismail Khaled, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, as línguas de ouro tinham uma função simbólica precisa: garantir que o morto pudesse falar com Osíris, senhor do submundo na cosmologia egípcia, no momento do julgamento da alma.
Segundo o Science Alert, o ouro foi escolhido por sua incorruptibilidade. O metal que não enferruja nem apodrece era a metáfora ideal para a voz que deveria persistir além da morte, lógica que também explicaria outra descoberta rara no mesmo sítio: unhas de mãos e pés recobertas de folha de ouro, numa extensão do princípio de proteção ao corpo inteiro.
As tumbas foram escavadas diretamente na rocha natural abaixo do solo e estavam intactas. Além das línguas e unhas de ouro, os pesquisadores encontraram um conjunto raro de artefatos funerários bem preservados:
É a primeira vez que tumbas romanas de alto status são identificadas no sítio de Al-Bahnasa. Muitos dos artefatos encontrados, incluindo as línguas e as unhas de ouro, são inéditos na região.
Os túmulos pertencem ao período Ptolemaico (305 a.C. – 30 a.C.), quando o Egito era governado por uma dinastia descendente de um dos generais de Alexandre, o Grande. É um período de intensa fusão entre práticas funerárias egípcias tradicionais e influências gregas e romanas.
A Universidade de Barcelona, responsável pela escavação junto ao Instituto para o Estudo do Antigo Oriente Próximo, destaca que esse contexto ajuda a explicar tanto a sofisticação dos ritos quanto o uso de materiais preciosos em indivíduos de alto status social.
Em 2021, uma equipe egípcio-dominicana liderada pela arqueóloga Kathleen Martinez encontrou uma múmia com língua de ouro em Taposiris Magna, templo dedicado a Osíris, próximo a Alexandria. Naquele sítio, 16 sepulturas escavadas na rocha foram identificadas, com moedas decoradas com o rosto de Cleópatra VII.
O canal Ciência News documentou essa descoberta em detalhes, mostrando os artefatos encontrados no local e o contexto histórico do período ptolemaico no vídeo a seguir:
Uma publicação científica de 2023 na PMC/NIH documentou, por tomografia computadorizada, a presença de um amuleto de língua de ouro na boca do chamado “Golden Boy”, múmia de cerca de 2.000 anos submetida a exame de imagem completo. O resultado confirmou que a prática estava distribuída por diferentes regiões e épocas do Egito antigo, e não era um costume isolado de uma única dinastia.
As línguas de ouro de Al-Bahnasa reforçam que o costume tinha uma lógica religiosa coerente e difundida entre as elites egípcias na virada da era.
Para os egípcios, a morte não era o fim da identidade. Era uma passagem que exigia preparação, proteção e, acima de tudo, a capacidade de se comunicar com os deuses. Segundo a BBC, práticas como a língua de ouro mostram que a voz era considerada uma das faculdades mais importantes a preservar no além.
O conjunto de descobertas em Al-Bahnasa amplia o entendimento sobre a diversidade dos ritos funerários ptolemaicos e reforça que práticas antes consideradas raras tinham, na verdade, uma lógica religiosa sólida e bem estabelecida entre as elites do Egito antigo